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Padre Antônio Vieira (Lisboa, 1608 – Salvador, BA, 1697)

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5. Padre Antonio Vieira (Lisboa, 1608 – Salvador, BA, 1697)
 
Um homem de ação

Foi matriculado no colégio Jesuíta em salvador; foi graduado em Mestre das Artes, sai de casa e inicia seu noviciado no ano de 1623 na Companhia de Jesus. Pregou pela primeira vez em 1633, o sermão: XIV, da série Maria, Rosa Mística. 

Vieira então parte para Portugal em 1641 quando é restaurada a monarquia lusitana com a Casa de Bragança, para mostrar fidelidade ao rei, D. João IV. Prega na Capela real pela primeira vez no ano de 1642, como um pregador próprio do Rei, servindo como conselheiro e embaixador e de 1646 a 1651 atuou como homem de negócios do reino (diplomata), na Itália, na Holanda e na França. 

No ano de 1652, ele voltou para o Brasil a fim de dominar todos os encargos do Maranhão, dedicando-se também à catequese dos índios, viajando até o Amazonas. 

Desanimado, voltou para Portugal no ano de 1654, tentando achar uma solução para os problemas dos índios. 


Vieira e a Catequese dos índios. 

Ele morreu no dia 18 de Julho de 1697.

Características do Barroco conceptista

CONCEPTISMO – É o aspecto construtivo do Barroco, voltado para o jogo das idéias e dos conceitos.

É a preocupação com as associações inesperadas, seguindo um raciocínio lógico, racionalista.

O principal conceptista do barroco mundial foi o espanhol Francisco de Quevedo. No Brasil, padre Antônio Vieira. 

A) A estrutura clássica: os sermões de Vieira tinham tanto o “poder” de convencer quem ouvia tanto pela razão quanto pela emoção. 

Na unidade do assunto: o tema é estudado em todos os aspectos.
Na circularidade do desenvolvimento: através da retomada constante das premissas iniciais que são repetidas até o fim do sermão.
Na divisão em cinco partes

1. Tema: vieira sempre começa seus sermões, relembrando uma passagem da bíblia, que represente o tema que será pregado.
2. Intróito: o sermão é exposto de maneira geral para todos que irão ouvi-lo.
3. Invocação: quem vai pregar o sermão pede ajuda e inspiração Divina.
4. Argumentação: o pregador expõe a tese com exemplos bíblicos. Utiliza o método parenético que laça o argumento e pensa em todas as possibilidades de contestação do ouvinte-leitor.
5. Peroração ou Epílogo: o pregador então faz uma conclusão de tudo o que havia falado e ressalta os fatos mais importantes da pregação. 

B) CULTISMO ou GONGORISMO – É o jogo de palavras; é o rebuscamento da forma, é a obsessão pela linguagem culta, erudita, por meio de inversão da frase (hipérbato), do uso de palavras difíceis.

É o abuso no emprego de figuras de linguagem, especialmente a metáfora, a antítese e o hipérbato.

O principal cultista do barroco mundial foi o espanhol Luiz de Gôngora. No Brasil, Gregório de Matos.

C) Uma retórica de combate: Independente da natureza do tema, Vieira o estuda todas às vezes em relação com o presente. Mesmo a linguagem sendo surpreendente, todos os seus sermões são “dependentes” do dia-a-dia e da realidade do homem da sua época. Ele foi considerado o maior prosador da língua portuguesa, estando tanto para a prosa de Camões como para a poesia. 

Sermão da Sexagésima

O Sermão da Sexagésima ou Sermão da Palavra de Deus é considerado uma teorização encima da arte de pregar, ou seja, sermão sobre sermão.

Vejamos a primeira edição completa dos sermões: 

Se chegar a receber a última forma um Livro que tenho ideado com o título de pregador e Ouvinte Cristão, nele verás as regras não sei se da arte, se do gênio que me guiaram por este novo caminho. Entretanto, se quiseres saber as causas por que me apartei do mais seguido, e ordinário, no sermão de Sêmen est verbum Dei, as acharás: o qual por isso se põe em primeiro lugar como prólogo dos demais. 

Texto I 

Sêmen est verbum Dei

E se quisesse Deus que estep tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão
desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho, e
ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe.
Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que «saiu o pregador evangélico a semear» a
palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus. Não só faz menção do semear,
mas também faz caso do sair: Exiit, porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura
e hão-nos de contar os passos. O Mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que
dispendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até o
sair é semear, porque também das passadas colhe fruto. Entre os semeadores do Evangelho
há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os
que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se
contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que
têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hãolhes
de medir a semeadura e hão-lhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores!
Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit seminare.

Texto II

Vieira começa a diagnosticar as causas da pouca eficácia da Palavra de Deus

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou
da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se
converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador
com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo;
há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são
necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por
falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo,
há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma,
senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários
olhos, é necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a
doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o
conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende
destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender
que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?
Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé,
definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos (…)
 

Sermão de Santo Amaro aos Peixes 

Foi pregado em São Luis do Maranhão no ano de 1654, revelando assim em seus sermões vícios e vaidades do homem, os comparando aos peixes; censuram os soberbos (roncadores), os pregadores (parasitas), os ambiciosos (voadores), os hipócritas e traidores (polvos).


“O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo: e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais, porque não fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que abraça e mais o que prende.(…)”
 

Sermão da Primeira Dominga da Quaresma

Além de ser chamado de Sermão da primeira Dominga da Quaresma é chamado também de Sermão do Cativo, que foi pregado em 1653 no Maranhão, esse sermão que era pregado tinha como objetivo de induzir os colonos para que eles libertassem os indígenas que haviam sido comparados aos hebreus seduzidos do faraó. Pregou na corte em defesa do índio contra os colonos, que em 1662 pregou ali o Sermão da Epifania, que dizia que todos os homens são igual independente da raça ou da cor. Quando pregou o sermão da primeira Dominga da Quaresma, o pregador imagina-se no lugar dos colonos e diz: 

Quem nos há de ir buscar um pote de água, ou feiche de lenha? Quem nos há de fazer duas covas de mandioca? Hão de ir nossas mulheres? Hão de ir nossos filhos? 

E ele mesmo responde 

Quando a necessidade e a consciência obriguem a tanto, digo que sim, e torno a dizer que sim: que vós, que vossas mulheres, que vossos filhos e que todos nós nos sustentássemos de nossos braços, porque melhor é sustentar do suor próprio que do sangue alheio. Ah! Fazendas do Maranhão; que se esses mantos e essas capas se torcerem, haviam de lançar sangue.

Sermão XIV do Rosário

Foi pregado na Bahia para uma irmandade de negros, que revela a repulsa sobre o preconceito de cor e ao tratamento cruel a que passavam os escravos. 

“Em um engenho sois imitadores de Cristo Crucificado: porque padeceis de um modo muito semelhante ao que o mesmo senhor padeceu na sua cruz. (…) Cristo despido, e vos despidos, Cristo sem comer e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. (…) Eles mandam e vós servis, eles dormem e vós velais; eles descansam, e vós trabalhais; eles gozam o fruto de vossos trabalhos, e o que vós colhei deles é um trabalho sobre o outro. Não há trabalhos mais doces do que os da vossa oficina; mas toda essa doçura para quem é? Sois como as abelhas de quem disse o poeta: "Sic vos non vobis mellificatis apes". (Verso atribuído a Virgílio: "Assim vós, mas não para vós, fabricais o mel, abelhas".)


Vieira pregando seus sermões.

Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda

Faz exortação aos baianos e aos portugueses para que defendessem sua terra de invasões holandesas.
 
"Finjamos, pois (o que até fingindo e imaginando faz horror), finjamos que vem a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses: que é o que há de suceder em tal caso? Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, a sexo nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos Chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua modéstia; chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito às suas cãs; chorarão os nobres, vendo que não se guarda cortesia à sua qualidade; chorarão os religiosos e veneráveis sacerdotes, vendo que até coroas sagradas os não defendem; chorarão, finalmente, todos, e entre todos mais lastimosamente os inocentes, porque nem a estes perdoará (como em outras ocasiões não perdoou) a desumanidade herética. Sei eu, Senhor, que só "por amor dos inocentes dissestes vós alguma hora que não era bem castigar a Níneve . Mas não sei que tempos nem que desgraça é esta nossa, que até a mesma inocência vos não abranda.
Pois também a vós, Senhor há de alcançar parte do castigo – que é o que mais sente a piedade cristã – também a vós a de chegar
."

Sermão do bom ladrão

Vieira neste sermão faz distinção sobre o ladrão que rouba por necessidade (comum) e aquele ladrão com muito poder rouba as cidades, ele então vai procurar na Bíblia ilustrações sobre este acontecimento. Os que são brutamente punidos pelos seus atos e aqueles que ficam impunes por serem “poderosos”. 

Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. — Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: Nou cessat simul furta, vel punire, vel facere: Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. — Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.

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